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De Serva à Senhora

Quando deixamos o Seminário para assumirmos um campo, presumimos, muitas vezes, que sabemos o suficiente a respeito das disciplinas estudadas e não nos damos conta que a nossa preparação acadêmica foi o primeiro dos impulsos em direção a novos estudos.

Assim, ao nos voltarmos para um estudo mais atencioso dos textos bíblicos vamos, inevitavelmente, descobrir aspectos estruturais que jogam, repetidas vezes, nossos pressupostos homiléticos por terra.

Aprendemos no Seminário, a estruturar nossos sermões e estudos conforme as regras observadas nos grandes pregadores do passado. Regras estas que cientificamente denomina-se “regras homiléticas”.

Não há nada de mal, em si, o uso de tais regras, se forem usadas para servir o/a ministro/a, como entendo que sejam. Entretanto, de serva, a homilética passou a ser senhora, e senhora tal que não permite ao expositor bíblico respeitar as estruturas que encontramos nos textos.

Portanto, quero mostrar que os textos bíblicos obedecem a certas estruturas naturais e que podemos utiliza-las para ministrar a palavra.

As Estruturas Textuais

Denomino “estrutura textual” a forma como aparecem dispostos os elementos dentro de padrões nos textos. Na análise dos textos bíblicos, temos que notar a disposição natural de tais elementos. Tal disposição é uma imposição interna que o autor colocou e quer que seja considerada por aqueles que lerão o texto, pois a distribuição dos elementos obedeceu a uma intenção didática, não foi feita à revelia deste propósito.

Vou tomar dois textos como amostra para exemplificar suas respectivas estruturas.

Amós 1.3-5

3 Assim diz o SENHOR: Por três transgressões de Damasco e por quatro, não sustarei o castigo, porque trilharam a Gileade com trilhos de ferro. 4 Por isso, meterei fogo à casa de Hazael, fogo que consumirá os castelos de Ben-Hadade. 5 Quebrarei o ferrolho de Damasco e eliminarei o morador de Biqueate-Áven e ao que tem o cetro de Bete-Éden; e o povo da Síria será levado em cativeiro a Quir, diz o SENHOR.

Inicialmente, demarca-se os limites do texto. Este processo consiste em encontrar o início e o fim do texto considerado. (Obs: considera-se, para esse fim, o texto sem as divisões em capítulos e versículos).

Neste caso, o texto tem seu início com as palavras – Assim diz o Senhor –, e tem seu término com – diz o Senhor –. Assim, o trecho de Amós 1.3-5 pode ser tomado como um parágrafo em si.

Para confirmar essa afirmação, basta olhar para o contexto e verificar que outros textos semelhantes a este, em função (profecia contra uma nação) também se iniciam e terminam do mesmo modo. Por exemplo, a profecia contra Gaza inicia-se com – Assim diz o Senhor – e termina com – diz o Senhor –. Do mesmo modo ocorre com as profecias contra Amom, Moabe e Israel. E ainda, com uma pequena variação no final, com as profecias contra Tiro, Edom e Judá.

Feita a demarcação dos limites do texto, passa-se a verificar qual a estrutura da perícope.

O trecho começa de uma forma autoritativa – Assim diz o Senhor –, a qual chamo de “Fórmula do Mensageiro”.

O segundo elemento que se percebe é uma “Acusação” – Por três transgressões de Damasco, e por quatro, não susterei o castigo –.

Um terceiro elemento decorre naturalmente do segundo, pois o castigo tem que ter um motivo. Assim, esse elemento é o que chamo de “Base do Castigo”, isto é, a explicação do “porque” – Porque trilharam a Giliade com trilhos de ferro –.

Ainda, um quarto elemento deste trecho é a “Descrição do Castigo”, iniciada por uma conjunção conclusiva por isso. Este elemento também decorre do anterior:  – Por isso meterei fogo ... será levado cativo a Quir ... – .

Finalmente a unidade é encerrada com uma “Fórmula Conclusiva”, abreviada da introdução – diz o Senhor –.

Em resumo, a estrutura de Amós 1.3-5 é a seguinte:

I. Fórmula do Mensageiro 3 Assim diz o SENHOR:
II. Ameaça de Castigo Por três transgressões de Damasco e por quatro, não sustarei o castigo,
III. Base do Castigo porque trilharam a Gileade com trilhos de ferro.

IV. Descrição do Castigo

4 Por isso, meterei fogo à casa de Hazael, fogo que consumirá os castelos de Ben-Hadade. 5 Quebrarei o ferrolho de Damasco e eliminarei o morador de Biqueate-Áven e ao que tem o cetro de Bete-Éden; e o povo da Síria será levado em cativeiro a Quir,
V. Fórmula Conclusiva diz o SENHOR.

 

As outras sete profecias que se seguem, salvo pequenas variações, possuem a mesma estrutura textual.

Mateus 6.2-4

2 Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. 3 Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita; 4 para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.

Usando o mesmo procedimento, é preciso, além de demarcar o trecho, identificar os elementos da sua estrutura textual.

Primeiramente delimita-se o texto. O parágrafo inicia-se com um advérbio temporal – Quando – e encerra-se com a palavra – recompensará –. (OBS: o v.1 é tomado como introdução geral para as três unidades que se seguem; esmola, oração e jejum).

Esse trecho será tomado como uma unidade completa em si.

Esta afirmativa é claramente comprovada com uma simples olhada no contexto (cf. vv. 5 e 6; 16 e18); versos que encerram uma estrutura textual idêntica.

Uma vez delimitado o texto, passa-se a determinar a estrutura.

Neste trecho os elementos estão dispostos de tal maneira a formarem duas partes: Na primeira parte existe uma introdução que é feita com uma menção do assunto – Quando, pois, deres esmola –.

O segundo elemento constitui-se numa “Advertência” aos discípulos para não agirem conforme hipócritas – não toques trombeta ... –.

O elemento que se segue é uma “Explicação da Advertência”, iniciada por uma conjunção explicativa, omitida neste parágrafo, mas subentendida conforme vv. 5 e 16. Assim, o texto pode ser lido – porque dão esmola nas sinagogas ... –.

O último elemento da primeira parte é a “Conclusão” – já receberam a recompensa – (passado).

A introdução da segunda parte, iniciada por uma conjunção adversativa, “Contrapõe” o ensino, fazendo uma menção do assunto – tu, porém, ao dares a esmola –.

Em segundo lugar aparece um “Ensino” seguindo imediatamente a frase adversativa –  ignore a tua esquerda ... –.

A conclusão da segunda parte é feita com uma promessa no futuro, fechando assim a unidade completa.

Resumindo a estrutura textual de Mateus 6.2-4.

1ª PARTE  
I. Introdução 2 Quando, pois, deres esmola,
II. Advertência não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas,
III. Justificativa da Advertência para serem glorificados pelos homens.
IV. Conclusão (passado) Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa.
2.ª PARTE  
I. Contraposição do Ensino 3 Tu, porém, ao dares a esmola,
II. Ensino ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita; 4 para que a tua esmola fique em secreto;
III. Conclusão (futuro) e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.

 

Os outros dois parágrafos (oração e jejum), seguem a mesma estrutura.

É bom ressaltar que Mateus aduz , ao parágrafo da oração, um ensino complementar (vv. 7-15).

Com tais amostras é possível comprovar que os textos respeitam, dentro do seu gênero, certas estruturas textuais.

A guisa de exercício de fixação pode-se tentar estabelecer a disposição dos elementos dos seguintes trechos: As 7 cartas  do apocalipse, os AIS de Mateus 23.13ss; os cânticos de Lucas; as antíteses de Mateus 5.21-47 e assim por diante.

A Questão

Tendo descrito as estruturas acima, surge a questão:

Como se comportam as regras homiléticas nesses casos?
A experiência tem demonstrado que a homilética não respeita os elementos naturais do texto. Padronizou-se ministrar (sermões e estudos) com três ou quatro divisões, não que as divisões homiléticas sejam más em si, mas tais regras muitas vezes, forçam a ver divisões onde não há ou omiti-las de um texto.

No caso de Amós 1.3-5, caberia uma divisão homilética tradicional (três divisões, introdução e conclusão).

Contudo, no caso de Mateus 6.2-4, a mesma divisão homilética não teria lugar, sem violar as divisões naturais impostas pela estrutura textual.

Conclusão

Com essas breves considerações, gostaria de propor uma inversão de posição, isto é, devolver à homilética o seu lugar de serva e considerar os textos sob a perspectiva de suas estruturas naturais.

Se a homilética tem por objetivo colocar de maneira clara e didática a ministração da palavra, as estruturas textuais se prestam a isso muito mais.

Afirmo isso porque podemos utilizar as divisões dos textos segundo os padrões impostos internamente, isto é, pelos padrões estruturais do próprio autor que pretendeu, no mais das vezes, ser claro, conciso e didático.

Portanto, digo que não devemos nos prender, cegamente, aos padrões impostos ao texto externamente, isto é, às leis homiléticas.

Façamos a experiência, usemos as estruturas textuais na ministração da palavra.

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