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Prédica: João 10.22-30 (31-39)
Leituras: Atos 13.15-16ª,26-33 e Apocalipse 7.9-17
Autor: José Roberto Cristofani
Data Litúrgica: 4º Domingo da Páscoa
Data da Pregação: 10/05/1992
Proclamar Libertação - Volume: XVII

proclamar libertacao 17

1. Delimitação

A perícope proposta se restringe a Jo 10.22-30. Contudo, gostaria de sugeri i que a mesma fosse considerada até o v. 39. Cito apenas dois motivos: 1° - Jo 10.31-39 não consta das perícopes do Lecionário Ecumênico ABC, portanto, sua consideração aqui não prejudica a série. 2° - Este perícope nitidamente se estende até o v. 39, p. ex., repetição de palavras obras, Pai, crer/não crer, e é sem dúvida a continuação do diálogo de controvérsia (este é o seu gênero literário) inicia do no v. 24.

2. O texto

2.1. Crítica textual

Temos diversas variantes. Porém, a mais significativa encontra-se no v. 29, onde lemos com C. H. Dodd, p. 571, nota 49: O Pai, que me deu tudo, é maior que todos. Assim, a Bíblia de Jerusalém e a Edição Pastoral.

2.2. Estrutura

Moldura — vv. 22-23
A. Rodearam Jesus — v. 24a
B. Se és o Cristo — v. 24b
C. Não credes/obras-Pai — vv. 25-26a
( ) Caracterização daquele que crê (ovelha) — vv. 26b-29
D. Eu e o pai somos uma só coisa — v. 30

A'. Pegaram em pedras — v. 31
B'. Sou filho de Deus — vv. 32-36
C'. Obras-Pai/não credes — vv. 37-38a
D'. Pai em mim, Eu no Pai — v. 38b
A. Procuravam prendê-lo — v. 39

3. Contexto

O texto faz parte do bloco literário que se estende de 4.6b até 11.54. E funciona como a identificação final de Jesus como o Cristo (libertador) de Deus, isto é, como o próprio Deus (Eu e o pai somos uma só coisa, 10.30; cf. 8.58; Eu sou é designação exclusiva para Javé, Êx 3.14; Dt 32.39), face aos judeus que já vinham hostilizando-o a cada passo desta identificação (Jo 5.18; 7.1,16-20; 8.40 entre outros, até a resolução final do Sinédrio em concretizar esta hostilidade, matando-o (cf. 11.47-54).

Diante desta identificação de Jesus, duas posições antagônicas eram tomadas: crer em Jesus como Deus ou não crer. A primeira gera seguimento, a segunda oposição (cf. 9.27).

Note-se ainda que para a comunidade, a situação era de medo e hostilidade, pois quem confessasse/seguisse (9.22,28) era expulso das sinagogas (9.22,34,35).

4. Comentário

Moldura (vv. 22-23) — O diálogo de controvérsia é emoldurado pela Festa da Dedicação (Hanukkah) que comemorava a purificação e reconsagração do Templo pelos macabeus, em 25 do mês Quisleu de 164 a.C. (cf. Mc 1,59; 4,52.59). Isso evocava a lembrança da libertação de um dos mais importantes elementos da identidade judaica: o Templo. Nele estava concentrado o projeto nacional dos judeus.

Jesus passeava sob o Pórtico de Salomão, que foi, possivelmente, um local onde os doutores fariseus ensinaram seus discípulos. Se é assim, então a moldura tem dupla finalidade: l ° — de lembrar à Comunidade que tanto o programa baseado no Templo quanto o dos fariseus, após a destruição do mesmo (ambos institucionais), eram contrários a Jesus e seus discípulos. 2° — de identificar os interlocutores de Jesus/Comunidade na controvérsia.

Isso nos coloca na questão fundamental do diálogo: Qual a identidade de Jesus/Comunidade?

A (vv. 24a, 31 e 39) — Estes versos são como um refrão que destacam a hostilidade com que os judeus, que representam a instituição judaica (perversa), agem em relação à proposta de Jesus. No v. 24a rodearam significa cercar com intenção hostil. Os vv. 31 pegaram em pedras (cf. 8.59) e 39 prendê-lo falam por si mesmos. Outros indícios de violência que podemos ver no texto são: arrebatar, vv. 28-29 (cf. 10.12 o lobo arrebata, despedaça); ser destruído, v. 28 (a versão de Almeida tem perecer); apedrejamos vv. 32-33. Assim, o texto aparece carregado com uma violência explícita.

B (vv. 24b e 32-36) — No v. 24b podemos usar a paráfrase de A. J. Macleod (NCB): Até quando continuarás a ameaçar a nossa vida?

Na verdade, ainda não está clara a identidade de Jesus/Comunidade que está ameaçando a vida institucional dos judeus. Por isso, eles insistem em saber da messianidade de Jesus: Se és o Cristo, dize-o francamente. Esta é uma frase condicional presumida como real (se + presente na prótase e aoristo na apódose). Portanto, é na verdade uma afirmação de que Jesus é o Cristo, colocado nos lábios dos judeus.

A esta frase correspondem os vv. 32-36, onde Jesus se identifica como o consagrado do Pai (no v. 36, Almeida tem santificado), e é acusado de blasfêmia Observar que o fator de identificação de Jesus não é só dizer, mas fazer obras (cf. vv. 25, 32-33, 37-38).

Para a comunidade, não é mais o Templo o reconsagrado a Deus (ele identificava os judeus como povo de Deus), mas é o Cristo, o consagrado do Pai queda a nova identidade para o povo de Deus (cf. 2.18-22; 4.19-26).

C (vv. 25-26a e 37-38a) — A afirmação de Jesus é de que Ele já disse o que eles queriam saber (cf. 8,23-25; 5.17; 6.29), e eles não creram; fez obras (4.46ss.; 5.lss.; 9.1ss.) em nome do Pai, e ainda assim eles não creram. A mesma ideia é repetida, de forma negativa, nos vv. 37-38a. Note-se que João usa crer + dativo para enfatizar a adesão a Jesus como Cristo. Assim, crer significa assumir a nova identidade de discípulo.

O que caracteriza aquele que crê? Isto é o que vão responder os versos seguintes:

( ) Vv. 26b-29 — Estes trechos podemos chamar de um parêntese que explica o que é crer (aderir) em Jesus, retomando elementos de 10.1-18. (Sobre estes versículos ver PL, Vol.II, pp. 40ss.; PL, Vol.X, pp. 310ss.). Aderir e ouvir a voz de Cristo, ser conhecido dEle, segui-lo, receber vida eterna, não ser destruído ou arrebatado (note o caráter violento desta palavra).

Estes versos estão em nítido contraste com os judeus que não creram e, portanto, não são ovelhas.

D (vv.30 e 38b) — Com duas fórmulas lapidares, repetidas em paralelo, o texto conclui a controvérsia, demonstrando assim a definitiva e clara identidade de jesus/Comunidade.

5. Resumo

A perícope traz uma controvérsia acerca da identidade de dois grupos: Jesus/Comunidade x judeus. Tal identidade determinará quem na verdade é o povo ele-Deus: a instituição (judeus) ou a Comunidade (Jesus). Identificar-se com Cristo é identificar-se com o próprio Deus. É aderir à sua proposta. É ser discípulo (ovelha — vv. 26b-29) e praticar as mesmas obras que o Pai. É ameaçar a instituição e dela sofrer violência.

A identidade de povo de Deus liberta a Comunidade da estrutura opressora judaica. Contudo, lança-a num conflito aberto com a mesma.

6. Aplicação

Se lembrarmos que a instituição judaica, mesmo depois da destruição do Templo, extrapolava o caráter religioso, sendo também uma grandeza sócio-político-econômica, então estaremos em condições de aplicar esse texto para além de nossas instituições eclesiásticas, alcançando também as instituições sociais.

Não estou sugerindo que todas as instituições são perversas, violentas e opressoras, mas se tornam à medida em que se opõem à proposta de Cristo.

Refleti este texto em um contexto particular de uma comunidade pequena na periferia de uma cidade portuária, onde os problemas institucionais são específicos tanto quanto as soluções. Por isso, não tenho a pretensão de aplicar essa perícope a uma situação imaginada como geral. Assim, algumas perguntas talvez possam ajudar a refletir sobre cada realidade específica:

  • O que nos dá identidade? Cristo? As instituições?
  • É possível falar de conflitos por causa da nossa identidade?
  • Assumir tal identidade ameaça alguma estrutura?
  • Há hostilidade quando assumimos tal identidade? Outras questões devem ser formuladas.

7. Dicas litúrgicas

Sugiro um culto temático: Jubilate pela ressurreição daquele que nos dá identidade. Utilize cantos, orações, poesias, objetos, cartazes, símbolos, etc., ligados ao tema, utilizando também as outras leituras previstas para o dia: At 13.15-16a; 26-33 pode ser usado para aclamação. Ap 7.9-17 pode ser utilizado para o momento de louvor. A coleta será o momento concreto de expressar o júbilo.

8. Bibliografia

DODD, C. H. A Interpretação do Quarto Evangelho. São Paulo, Paulinas, 1977.
BROWN, R. E. A Comunidade do Discípulo Amado. São Paulo, Paulinas, 1984.
MORRIS, L. The Gospel According to John. Grand Rapids, Eerdmans, 1984.
MATEOS, J. — J. BARRETO, O Evangelho de São João. São Paulo, Paulinas, 1989.

http://www.luteranos.com.br/conteudo/joao-10-22-30-31-39

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