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Palavra aos formandos em Direito da USP - Largo de São Francisco

Promotores e promotoras de reencontros entre a misericórdia e a justiça

cristofani promotores

Queridas formandas e queridos formandos:

Parabenizo todos vocês por terem chegado a este momento de transição: a formatura. Todos nós, como representantes da sociedade, nos alegramos por e com vocês pelo fato de terem aproveitado, com garra e determinação, a oportunidade que lhes foi dada neste templo de formação de mentes preparadas para o exercício de tão nobre e necessária vocação.

E essa mesma sociedade que lhes confere o título de bacharéis em Direito nutre, entre outras expectativas, que vocês atuem como promotores e promotoras de reencontros entre a misericórdia e a justiça, na tênue, frágil e delicada linha entre elas, como bem diz o sábio no livro das Tehilim: Abraçaram-se misericórdia e verdade. Justiça e paz se beijaram. (Salmo 85.10)

Deixem-me começar com uma história:

Nos primórdios das eras, as gêmeas, Justiça e Misericórdia, viviam juntas na terra dos homens. As pessoas que ali habitavam desfrutavam, todas de igual modo e equitativamente, dos frutos tanto da Misericórdia quanto da Justiça. Da misericórdia colhiam a verdade e da Justiça, a paz. O convívio harmonioso era a marca entre todos.

Mas um dia, o mal dividiu a terra separando as duas irmãs. Misericórdia ficou de um lado e Justiça do outro. Isoladas, desse jeito, elas não podiam mais agir juntas em favor dos seres humanos.

Muito tempo se passou sem que os homens pudessem desfrutar dos bens da Justiça e da Misericórdia. De um lado só justiça, rigorosa e inflexível. Do outro, apenas misericórdia, condescendente e flexível. Do lado da Misericórdia não havia justiça. Da banda da Justiça não tinha misericórdia. Frouxidão ou rigor, condenação ou absolvição, complacência ou intolerância. Tudo era desequilíbrio e desarmonia, em ambas as extremidades.

Então, um belo dia, o Criador, ao ver a aflição na qual viviam as pessoas, enviou o seu melhor promotor de reencontros para restabelecer a estabilidade há muito perdida. Entrementes, o promotor de reencontros estendeu uma tênue, frágil e delicada linha entre as duas partes para que as duas irmãs pudessem se encontrar novamente.

Desse então, Justiça e Misericórdia se encontram, se abraçaram e se beijam nessa tênue, frágil e delicada linha, para que todos possam usufruir, novamente de seus frutos: a verdade e a paz.

Nesta metáfora, meus jovens, vocês são as promotoras e promotores enviados pelo Criador para promover, outra vez e sempre, o reencontro entre a Misericórdia e a Justiça. E creio não seja preciso adverti-los, que a vocação que vocês escolheram viver, a viverão na tênue, frágil e delicada linha entre a justiça e a misericórdia, a verdade e a paz.

Estou cônscio de que não é uma decisão fácil, mas permitam-me tecer três ponderações sobre essa tênue, frágil e delicada linha.

A linha entre a misericórdia e a justiça é tênue, pois facilmente qualquer vacilo sobre a linha da justiça nos faz resvalar para a vingança, como diz a expressão popular “fazer justiça com as próprias mãos”. E muitas vezes a nossa bem-aventurada sede de justiça corre o sério risco de se transformar em “justiçamento”. Talvez, também, por causa da nossa natural indignação diante dessas situações, nos tornemos propensos a sede lex dura lex ou a lex talionis.

Quanto à misericórdia, a linha é tênue também, pois comumente tendemos à condescendência, como dizemos “passar a mão na cabeça”. Outras vezes nosso bem-aventurado espírito misericordioso periga inclinar-se para a pura complacência. E, não por acaso, tendemos a seguir apenas o nosso coração em tratar todos de forma indulgente.

A linha entre a misericórdia e a justiça é frágil também, pois qualquer peso indevido colocado em uma ou em outra parte pode inclinar e fazer cair por terra a tentativa de aplicá-las de forma equilibrada. Muitas vezes, por causa da nossa visão ocidental dualista e maniqueísta, agravada por concepções cartesianas, tendemos a escolher um dos lados preterindo o outro, e isso resulta em um desequilíbrio fazendo com que um dos pratos da balança suba e o outro desça.

Por fim, a linha entre a justiça e a misericórdia é delicada, pois não se trata de lidar com conceitos abstratos de justiça e misericórdia, aplicados ao léu, antes de aplicá-los às vidas humanas que são alvo dos atos de justiça e misericórdia. Um ato equivocado de misericórdia pode destruir uma vida, tanto quanto um ato equivocado de justiça.

Queridos formandos e queridas formandas, como sociedade nutrimos o desejo de que todos vocês, sem exceção, atuem como promotores e promotoras de reencontros entre a misericórdia e justiça, na tênue, frágil e delicada linha entre elas, e tornem realidade as palavras do sábio: Abraçaram-se misericórdia e verdade. Justiça e paz se beijaram. (Salmo 85.10)

O Criador, que os vocacionou e os enviou os abençoe grandemente para cumprirem sua vocação!

Lido 798 vezes Última modificação em Terça, 26 Dezembro 2017 15:11
JR.Cristofani

PhD em Teologia, Mestre em Antigo Testamento, Especialista em Educação e Novas Tecnologias.

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