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Introdução

O objetivo desta palestra é analisar os princípios hermenêuticos de Lutero e Calvino de maneira que possamos detectar o que há de similar e de peculiar em cada uma das abordagens por eles propostas.

Falamos em princípios hermenêuticos e não exegético, pois à época dos Reformadores não havia, ainda uma ciência exegética no sentido que conhecemos hoje.

Assim, dividiremos o tema em três passos:

1. O primeiro passo abrangerá os princípios hermenêuticos em si, onde será feita uma breve comparação entre os elementos utilizados por um e por outro na leitura bíblica.

2. O segundo passo constará de um estudo de caso onde veremos como cada qual aplica seu “método". Elegemos para tanto o texto de Daniel 11.36ss.

3. No terceiro e conclusivo passo assinalaremos a fusão das duas análises precedentes, tentando verificar como o uso de tais princípios, vistos no primeiro passo, podem ter determinado a leitura apresentada no segundo passo. Convém ressaltar que está completamente fora de propósito a emissão de qualquer juízo-de-valor sobre o trabalho hermenêutico de ambos os Reformadores. Com isso queremos dizer que não diremos se tal ou qual interpretação é mais plausível ou não, do que a outra.

1. Princípios Hermenêuticos de Lutero e Calvino

Neste passo queremos esboçar os princípios que consideramos fundamentais na interpretação da Escritura feita por Lutero e Calvino.

Como há muitas semelhanças entre os elementos interpretativos de ambos, faremos a análise concomitante, verificando também as dessemelhanças entre eles.

Muito do que escreveram esses dois Reformadores foi fruto da época em que viveram, resultado de muitas controvérsias, aulas, sermões, "leituras", comentários, etc. Isso deve ser pressuposto como pano de fundo sobre o qual tudo neles deve ser analisado.

Pressupostos de Lutero e Calvino

Como ponto de partida, temos a atitude de Lutero e Calvino frente às Escrituras. Para um e outro a Bíblia é a "suprema autoridade" sob a qual tudo deve ser submetido.

Esse reconhecimento vem em função da absolutização, por parte da Igreja, do magistério eclesiástico que era a última instância autoritativa que decidia o que era a correta interpretação da Escritura e o que era artigo de fé a ser crido.

Ligado a essa problemática encadeia-se a discussão pelo papel da "tradição" na hermenêutica da Bíblia, pois se a autoridade final é a Palavra de Deus, a Tradição da Igreja está, conseqüentemente, relegada a uma posição, pelo menos, secundária.

Lutero mostra uma aparente ambigüidade em sua atitude para com a relação entre Tradição e Escritura. Porém, o reformador é contra o abuso da Tradição pelo magistério (atitude idolátrica para com a Tradição), mas que é leal aos Pais da Igreja ao tomar, como eles, a autoridade das Escrituras acima de toda opinião humana. Pelikan1 destaca a:

"Insistência de Lutero de que a Escritura, não os Pais, deveriam decidir uma controvérsia teológica."

De igual modo Calvino subordinou a autoridade dos Pais à Bíblia, apesar de ter tido uma postura mais favorável aos Pais da Igreja do que Lutero2. Ambos, contudo, rejeitaram os erros dos Pais e o emprego errôneo que deles fez o magistério.

O questionamento da supremacia eclesiástica levou, conseqüentemente, ao questionamento de seu "método" de ler as Escrituras que era o escolástico, isto é, o método quádruplo ao qual Lutero se dedicara enquanto ainda monge. Neste método o destaque era para a "alegoria".

Sob a influência do humanismo, quase todos os reformadores abandonaram o sentido alegórico e passaram a operar como o que foi denominado "sentido literal". Tanto Calvino quanto Lutero o adotaram e insistiram que a alegoria era uma:

"'commentum satanae' para aniquilar a dignidade da Escritura. Ele (Calvino) diz que as alegorias são 'pueris' e 'forçadas' e que ele alegremente se abstém delas, porque não há nada nelas de firme e sólido."3

Lutero diz:

"Alegorias são ineptas, absurdas, inventadas, obsoletas, sobras soltas"4

Em contrapartida assinalam:

"Só o sentido literal da Escritura é toda a essência da fé e da teologia."5

"Cada passagem tem, ela mesma, um sentido claro, definido e verdadeiro."6 (Lutero)

"O trabalho primeiro de um intérprete é deixar o seu autor falar o que ele disse, ao invés de atribuir-lhe o que imaginamos que ele deveria dizer."7  (Calvino)

Com isso já se afirma a "clareza" da Escritura, clareza essa que a torna acessível a todos.

Nesse ponto Lutero fala da "Clareza externa" - Escritura como letra - e da "Clareza interna" - Escritura como conteúdo. A primeira o leitor compreende por si só, a segunda, somente pela mediação do Espírito Santo. Do mesmo modo, Calvino atribui à comoção do Espírito Santo o entendimento do intérprete. Ambos destroem a mediação da Hierarquia na compreensão da Palavra de Deus.

Mas o que é Palavra de Deus?

Calvino crê que o cânon contém toda Palavra de Deus, ao contrário de Lutero que admite ser Palavra de Deus também a pregação oral extraída da Bíblia. Também diferente é a concepção da relação entre o Novo e o Antigo Testamentos nos dois reformadores, pois a dicotomia Lei x Evangelho de Lutero não foi aceita por Calvino que diz:

".... O evangelho cancela o rigor da Lei, mas não o conteúdo da Lei. Na verdade, Cristo é a alma da lei e fora Dele ela está morta."8

Isso tem como conseqüência a afirmação de Calvino da "unidade na diversidade" quando usa o que chamamos de "princípio de acomodação", isto é, as diferenças na Escritura são devido às acomodações de Deus às necessidades humanas.

Outra diferença entre os dois é que, apesar de ambos considerarem a Escritura como tendo um “sentido histórico”, Lutero o entende “histórico” no sentido de “história do povo de Deus”, que é a Igreja, enquanto Calvino compreende histórico como “história geral” de cada período.

Longe de parecer distante, ambos os reformadores estão bastante próximos.

É Calvino quem adota de Lutero a regra de que a “Escritura é sua própria intérprete”, tendo como critério para ler as passagens mais difíceis (obscuras), as mais fáceis (claras).

Também, no que diz respeito à “Centralidade de Cristo” os dois são concordes. E é nela também que ambos diferem, pois enquanto para Lutero Cristo é determinante do cânon, para Calvino o mesmo fala de alguma maneira de Cristo.

Resumindo, podemos sistematizar o que vimos dizendo acima da seguinte maneira:

1. Calvino e Lutero coincidem:

a) Em que a Escritura seja a suprema autoridade, a instância última à qual se subordinam tanto a Tradição quanto o Magistério Eclesiástico;

b) Ao abandonarem a “alegoria” a favor de um “sentido literal”;

c) Ao dizer que é necessária a mediação do Espírito Santo no interior do intérprete;

d) Ao afirmar que a Escritura é a sua própria intérprete;

e) Ao enfatizarem a centralidade de Cristo nas Escrituras.

2.  Lutero e Calvino diferem, porém:

a) Sobre a extensão da Palavra de Deus, que para Calvino está “toda” no cânon, enquanto para Lutero ela ultrapassa a palavra escrita;

b) Na relação entre os Testamentos há divergências, pois Lutero fala em “Lei x Evangelho” e Calvino em “unidade na diversidade”;

c) Quanto ao sentido histórico da Escritura, é a história geral para Calvino e história do povo de Deus para Lutero.

A maneira de vislumbrar esses princípios hermenêuticos na prática é tentar detectá-los em um texto bíblico.

2. Leitura de Daniel 11.36ss por Lutero e Calvino

A escolha de Daniel 11.36ss para o presente estudo se deve ao fato de que os dois reformadores interpretaram esse texto.

Primeiramente procederemos a uma análise da leitura que Lutero faz do texto em pauta. Depois faremos o mesmo em relação a Calvino.

Lutero e Daniel 11.36ss

A obra do grande reformador alemão tem cerca de trezentas referências diretas e indiretas (consultamos a edição americana de 55 volumes) ao livro de Daniel e, especificamente ao texto em tela, inúmeras vezes. Selecionamos as passagens mais significativas nas quais Lutero faz alusão ou cita diretamente Daniel 11.36ss (é bom ter em mente que para Lutero, Daniel 11.36-45 faz parte do capítulo 12 do livro de Daniel).

Assim, chegamos à seguinte classificação:

Lutero usa esse texto em três sentidos básicos, sendo que o primeiro e o segundo estão ligados entre si, destacando-se apenas o terceiro.

a. O primeiro sentido de Daniel 11.36ss que constatamos nas obras de Lutero é aquele em que o Anticristo é visto como estando predito no texto. Neste tópico as seguintes passagens são significativas:

No prefácio ao livro de Daniel (1530), Lutero aplica todo o capítulo 12 (11.36-12.13) ao Anticristo, entendendo que sua geração está vivendo o final dos tempos. Em 1541, em um novo prefácio ao mesmo livro, Lutero escreve o famoso comentário ao Anticristo com base no capítulo 12, novamente.

s passagens abaixo são algumas, entre tantas:

“É preciso que o anticristo desenterre tesouros, como está anunciado.” (Daniel 11.39,43)9

“Daniel 11 (37-38) disse compreendendo que o Anticristo não daria atenção ao deus de seus pais; não propagaria os ensinamentos deles, e não seria casado: antes ele honraria seu deus MAOZIM – que é, ele proibiu o casamento somente por sua aparência de seus papistas.”10

“Espero que nosso Senhor Deus fará alguma coisa contra os turcos ... Todas as coisas na Escritura têm sido agora cumpridas. Somente Daniel 12 permanece [11.36-12.13] ... Penso que Roma é o lugar santo entre dois mares. Lá fica o papa no templo de Deus. Mas se os turcos forem lá, tudo será arruinado. Nada será deixado, mas só julgamento. Então o mundo virá para seu fim.”11

Na obra “A missa privada e a consagração de sacerdotes” de 153312 , Lutero afirma que Daniel 11.36 chamou de Anticristo ao papa e sua doutrina que prega a fé pelas obras e não por Cristo.

Em “A disputa central é a doutrina e não a vida” , do mesmo ano, Lutero fala em distinguir vida e doutrina, e é contra a doutrina do papa que criou outra Palavra de Deus. Assim ele reage:

“Por isso Daniel (11.36) caracterizou o papa com razão quando disse que haveria um reino no qual um rei agiria de acordo com sua vontade, que ele não observaria nenhuma matéria civil ou espiritual, mas simplesmente diria ‘Eu quero que’, não dando qualquer razão, mesmo alguma natural ... Essa é simplesmente uma religião da livre vontade.”

Em outro lugar14 Lutero diz que o Anticristo apareceria no fim do mundo:

“Isto ele está fazendo agora e ele disse que o Anticristo tomaria posição em dois pontos: O ídolo e a vida sem mulher. Daniel 11.37s.” [ídolo, aqui, é a missa].

Em seu comentário ao Salmo 110 (1535), Lutero toma Daniel 11.38 como predição do profeta. Ele está criticando o uso da Ceia pelo papa que a perverteu em um ídolo.

Lutero mostra, ainda, que Daniel 12 (11.36) fala do Anticristo que será um rei que fará sua própria vontade. Ele está criticando os escritos papais nos quais ele não se submeteu à Santa Escritura.

Em outras referências menores a Daniel 12, Lutero diz que o papa se exalta acima do Deus de seus pais (Daniel 11.36)15. Ao Anticristo, Daniel 11.45, ninguém ajudará no seu fim16. O papado é o Anticristo (Daniel 12 – 11.36). Ele e seus membros, com Daniel 11.36, receberão o castigo na última hora17.

b. O segundo uso que Lutero faz de Daniel 11.36ss está ligado ao primeiro, pois fala do CELIBATO como regra do papado (Anticristo). As seguintes passagens são esclarecedoras:

No seu “Prefácio à Primeira aos Coríntios 7”, de 1523, Lutero fala sobre o matrimônio contra alguns que não tomam esposa e vivem na livre fornicação. Também o clero faz isso:

“Como Daniel profetizou deles quando disse: ‘eles não consideram o desejo das mulheres’”.

Em seu “Comentário à Primeira aos Coríntios 7.8”, obra do mesmo ano, Lutero diz que o papa considera bigamia o viúvo casar-se novamente e não podendo, assim, ser sacerdote. Lutero fala da depreciação do casamento pelo papa e diz que Daniel 11.37 profetizou sobre essa regra do Anticristo dizendo:

“Ele não dará nenhuma atenção às mulheres, como se ele estivesse dizendo: ‘somente às prostitutas ele dará atenção’.”

“Assim o profeta Daniel disse acerca da regra do Papa no cap. 11.37: ‘Ele não dará nenhuma atenção para as mulheres’.”

“O profeta Daniel disse isto do papa há muito tempo atrás, no cap. 11, ‘Ele não conhecerá nada das mulheres casadas’ ou ‘Ele não dará atenção às mulheres casadas’.”19

Lutero diz que o celibato

“é inovação papal contra a palavra eterna de Deus ... Desse modo a profecia de Daniel 11(37) é cumprida onde ele diz do rei, ‘Ele não dará atenção a nenhum deus ou desejo das mulheres’.”20

Interpretando um artigo sobre o casamento de sacerdotes, Lutero mostra que a interpretação dada pelos papas e cardeais é errônea. Daniel (11.37) já havia proclamado que eles viveriam sem mulheres.21

“... o papa, o diabo, e sua igreja são avessos ao estado do matrimônio, disse Daniel (11.37)”.22

c. O último e mais surpreendente uso desse texto é relativo ao MESSIAS. Numa única ocasião23 Lutero aplica Daniel 11.37 ao Ungido de Javé, dizendo:

        ‘Daniel 11.37 diz: ‘Ele não dará atenção para as mulheres “‘mostrando que isso é o “Entendimento” de Is 11.2, isto é: “o cuidado e interesse diligente em conservar a sabedoria...”

Assim os três sentidos básicos que encontramos na interpretação que Lutero faz de Daniel 11.36ss, são os seguintes:

1. Predição profética referente ao Anticristo, que é o papa. Com ele é chegado o final dos tempos, período de sofrimento e miséria;

2. Profecia que descreve algumas atitudes que identificam o Anticristo, sobretudo em relação ao celibato;

3. Ajuda a interpretar Is 11.2 (característica do Messias).

Calvino e Daniel 11.36ss

Verificar a leitura que Calvino faz de Daniel é relativamente mais simples do que em Lutero, pois não se acham muitas referências a Daniel em outros lugares da obra desse reformador além de seu comentário ao livro (cerca de 25 páginas). Nele concentraremos nossa atenção.

A interpretação de Daniel que Calvino faz pode ser resumida em uma palavra: “histórica”. Ele compreende o texto como uma profecia (pp. 327 e 337) referente ao Império Romano (p. 339) ao tempo de Jesus (p. 346), antes do que a Antíoco IV ou ao Anticristo, mesmo que apenas em “tipo/imagem” (p. 338).

A exposição dos versículos 36-39 é feita de maneira minuciosa, rica em detalhes históricos, pois o que o texto diz deve ser buscado literalmente (p. 346). Contudo, ao interpretar o versículo 37: “... não terá consideração ao desejo das mulheres ...“. Calvino diz que isso é uma “figura de discurso” que quer apontar para a falta de uma “afeição natural” pela humanidade por parte do Império Romano e usa outro texto bíblico (amor de Davi e Jônatas) para iluminar esse versículo. Portanto, rejeita a interpretação literalista que diz que o texto fala do amor “conjugal” ou outra coisa qualquer.

Calvino descreve todo o trecho como um período cruel e difícil que deve ser aplicado à Igreja de seus dias, pois ambas as circunstâncias (p. 334), do povo judeu lá e da Igreja cá, são similares. Assim, ele pode afirmar que são os “papistas” (p. 334) os perseguidores da Igreja; que as indulgências são uma falácia (p. 336); que eles são os apóstatas (p. 327), entre outras coisas.

Portanto, a leitura de Daniel 1l.36ss que Calvino faz é uma exposição da história do Império Romano do século 1 A.D.. Tudo no texto está sob tal Império. Assim, é possível aplicá-lo às circunstâncias de sua época, respectivamente, à Igreja, perseguida pelos papistas.

Falta verificar, ainda, quais os meios que levaram Lutero e Calvino à uma interpretação diferente de um mesmo texto bíblico.

3. Princípios Utilizados por Lutero e Calvino

Vamos tentar detectar as diferenças e semelhanças nas duas leituras explanadas no item anterior e arriscar dizer que tais se devem ao “método” interpretativo que cada um aplicou ao mesmo texto.

Lutero está convicto, como Calvino, de que o texto em pauta é uma profecia, no sentido de predição futura. Entretanto, ao primeiro parece que tal profecia quer ser entendida em perspectiva, isto é, aplicada a Antíoco IV, como faz no “Prefácio a Daniel”, mas sobretudo ao Anticristo, sendo que essa última aplicação se impõe em Lutero. Já Calvino pensa no Império Romano como objeto de tal profecia, ficando somente no século 1 de nossa era.

Esse ponto de partida determina a leitura de ambos, pois o que um aplica ao Anticristo (papa), o outro o faz ao Império Romano, sendo que os dois convergem na “atualidade” do texto, não, porém, em sua mensagem original.

Calvino não menciona em lugar algum o “fim do mundo” como estando próximo, à base de Daniel 11. Ele não acredita estar vivendo na derradeira etapa da história como é convicção de Lutero. Todavia, são unânimes em ver que estão num período de tribulação. Assim, os dois reformadores posicionam-se contra os papistas, vendo neles a causa primordial da perseguição da Igreja.

Tudo isso se deve, é claro, às posturas “metodológicas” distintas em alguns aspectos. Também é fora de dúvida que nem todos os princípios hermenêuticos que alistamos no item 1 se encontram aplicados ao texto. Mas, chequemos quais podem ser pressupostos no caso que estamos estudando.

O princípio da “suprema autoridade” bíblica transparece, não só pelo uso sempre direto da Escritura, como também pela rejeição da “Tradição” interpretativa dos Pais da Igreja que alegorizaram tal texto. Nisto, tanto um quanto o outro está concorde.

Contudo, ao deixarem a alegorização do texto, Calvino parece mais conseqüente em aplicar o “sentido literal”, enquanto Lutero, imbuído em grandes controvérsias, parece deixar de usar o sentido literal com maior rigor, neste caso específico. Todavia, isso não lhe tira o caráter “histórico” de ler a Escritura, “história do povo de Deus” revelada pelo profeta, à qual Calvino acede, apenas dizendo, porém, que é para a história do período romano que aponta o texto ao invés do século XVI como entende Lutero ao aplicá-lo ao Anticristo, o que não obriga Calvino deixar o texto apenas no passado, mas atualiza-o ao seu presente.

O fundamento de que a “Escritura é a sua própria intérprete”, resulta produtivo apenas em um dos reformadores e não em outro. Calvino utiliza como dissemos anteriormente, o trecho bíblico referente a Davi e Jônatas para iluminar Daniel 11.37 e compreender-lhe o exato significado. Lutero não o faz. Pelo contrário, utiliza-se da história da Igreja para entendê-lo.

O aspecto determinante na hermenêutica que Lutero faz de Daniel 11.36ss é a “centralidade de Cristo”. Por analogia negativa, o que não “promove” a Cristo certamente, neste texto, deve ser visto como o seu contrário. Assim, não há dificuldade para ele afirmar que o trecho em pauta refere-se ao Anticristo. Tal aspecto não aparece em Calvino.

Sintetizando, é possível afirmar que a interpretação distinta de um mesmo texto feita por Lutero e Calvino, repousa sobre diferentes ênfases no uso de princípios semelhantes, que foram aplicados em situações específicas. Com isso queremos dizer que não apenas os princípios hermenêuticos foram responsáveis pelo sentido extraído do texto de Daniel, mas os objetivos que orientaram o uso de tais elementos interpretativos fizeram a diferença.

CONCLUSÃO

Foi nossa intenção avaliar os princípios hermenêuticos que nortearam a leitura bíblica de dois grandes expoentes da Reforma: Lutero e Calvino.

Nossa tentativa buscou clarear, em primeiro lugar, os princípios interpretativos de ambos, onde verificamos as convergências e divergências entre eles. Num segundo momento, descrevemos a leitura que os dois fizeram de Daniel 11.36ss, ressaltando os aspectos próprios de cada um. Finalmente, fundimos os dois passos anteriores para verificar como, na prática, poderíamos justificar a interpretação diversa de um mesmo texto.

Com isso quisemos mostrar que tanto Lutero quanto Calvino foram frutos de sua época, o que deveria ser pressuposto para avaliar-lhes o trabalho bíblico. Trabalho que fizeram de maneira diferente, mas ao mesmo tempo, semelhante. Semelhante nos princípios “metodológicos” de interpretação aplicada aos textos bíblicos. Diferente, contudo, por ter sido determinada pelo objetivo de cada reformador ao usar o mesmo trecho das Escrituras.

Assim, fica como tarefa uma avaliação mais profunda do mesmo assunto em outros textos bíblicos comuns aos dois reformadores, para ver se o que afirmamos aqui pode ser tomado como regra ou exceção.

Lições

Cremos que podemos aprender as seguintes lições, entre outras, como Igreja Reformada que deve estar sempre se reformando:

a. Recuperar a autoridade última das Escrituras, pois em vários casos a experiência pessoal do intérprete tem sido usada com o critério de autoridade e verdade;

b. Romper com um modelo radical de interpretação histórico-crítico que não toma em conta a fé e a prática da comunidade;

c. Atualizar e recriar, criticamente, a interpretação dos Pais da Igreja e dos Reformadores;

d. Recuperar o lócus hermenêutico por excelência: a comunidade da fé, pois nela o Espírito Santo se manifesta.

BIBLIOGRAFIA

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FARRAR, Frederic W. History of lnterpretation. Grand Rapids, Baker Book House, 1961. 322-352
FORSTMAN, H.J. Word and Spirit: Calvin ‘s Doctrine of Biblical Autority. Stanford, Stanford University Press, 1962.
FUHRMANN, Paul T. Calvin the Expositor of Scripture. In: Interpretation 39/2 (1985) 188-209.
HAROUTUNIAN, Joseph (Ed.). Calvin: Commentaries. Philadelphia, The West¬minster Press, 1958.
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LUTERO, Martín. Prefácio al Profeta Daniel (1530). In: Obras de Martín Lutero. Buenos Aires, Ediciones La Aurora, 1979. vol. 6, 92-109.
PELIKAN, Jaroslav. Luther lhe Expositor. In: Luther ‘s Works. Saint Louis, Concordia Publishing House, 1959. Companion Volume.
PELIKAN, Jaroslav. (Ed. General). Luther ‘s Works. Philadelphia, Muhlenberg Press. vols. 8, 13, 16, 28 e 30.

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NOTAS

1. Luther the expositor, p.113.
2. Farrar, History of Interpretation, p.343, nota 4.
3. Farrar, op. cit, p.345, nota 1.
4. Idem, ibidem, p.328.
5. Idem, ibidem, p.327.
6. Idem, ibidem, p.327.
7. Idem, ibidem, p.347.
8. Instituición, II, vii, 2.
9. À Nobreza Cristã da nação alemã, acerca da melhoria do estamento cristão (1520) In: Luther Works, 44, 141.
10. Resposta ao supercristão, superespiritual ... Emser (1521) In: Luther Works, 39, 195.
11. Os turcos e o fim do mundo (1532). In: Luther Works, 54, 46.
12. In: Luther Works, 38, 190.
13. In: Luther Works, 54, 110.
14. Carta do Dr. Martim Lutero acerca de seus livros sobre a missa privada (1534). In: Luther Works, 38, 232.
15. Lutero diz que está cansado (1539). In: Luther Works, 54, 343.
16. Repercussões da bigamia de Filipe Hesse (1540). In:  Luther Works, 54, 388.
17. Contra Hanswurst (1541). In: Luther Works, 41, 212 e 245.
18. Sermão sobre Judas 8” (1523). In: Luther Works, 30, 206.
19. Uma exortação aos cavaleiros da Ordem Teutônica (1523). In: Luther Works, 45, 144.
20. Exortação a todo clero reunido em Augsburg (1530). In: Luther Works, 34, 40.
21. Comentário sobre o alegado Edito Imperial (1531). In: Luther Works, 34, 93.
22. Sobre os concílios e a Igreja (1539). In: Luther Works, 41, 163.
23. Comentário a Isaías 11.2 (1523/4). In: Luther Works, 16, 119.

 

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