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INTRODUZINDO

Falar do Evangelho na cidade é tarefa delicada. Pelo menos por dois motivos: Primeiro, pela pressuposição generalizada de que a cidade é lugar da ausência de Deus. Segundo, pela compreensão do que seja cidade, pois quase sempre ela evoca a idéia de cidade-estado, aquelas cananéias, sobretudo.

Isso decorre, em parte, da concepção do conflito campo-cidade, que certamente existe e em certa medida afeta os próprios conflitos dentro da cidade. Contudo, ao focalizarmos a cidade como tal, deixaremos em segundo plano o conflito campo-cidade para olhar os conflitos internos na cidade.

Tomamos o texto de Atos 17,1-10a, pois narra um episódio da segunda viagem missionária de Paulo ocorrida em Tessalônica, que nos parece bastante elucidativo quanto aos seguintes propósitos do nosso trabalho:

1. Qual era a composição desta cidade? Procuraremos reconstruir a composição social de Tessalônica com vistas a formar um quadro dentro do qual o Evangelho aconteceu.

2. Como o Evangelho aconteceu nesta cidade? É pensamento nosso que, ao contrário do que muitos afirmam, a boa-nova não foi pacificadora social, integrando e legitimando um certo tipo de estrutura social, mas, ao contrário, foi mais um elemento a pôr em conflito a sociedade.

3. De que ótica devemos olhar a cidade? Nosso olhar tem privilegiado o campesinato em detrimento da cidade. Entretanto, essa ótica não é suficiente para avaliar as cidades.
Assim, procuraremos ver como Atos e Paulo se posicionaram em relação às cidades.

O TEXTO - Atos 17.1-10a

1. E atravessando Anfípolis e Apolônia, vieram (Paulo e Suas) a Tessalônica, na qual havia uma sinagoga dos Judeus. 2. E como o costume de Paulo, veio a eles e durante três Sábados conduzia a discussão com eles à base das Escrituras, 3. abrindo o sentido (da Escritura) e tendo inculcado ser inevitável que o Cristo (Ungido) sofresse a morte e ressuscitasse, e este é o Cristo, Jesus, o qual eu anuncio a vos. 4. E alguns dentre eles foram convencidos e seguiram como discípulos, com Paulo e Suas, bem como dos piedosos e dos gregos largo número e das mulheres proeminentes não poucas. 5. E os judeus estando cheios de ciúmes e levando à parte alguns homens miseráveis, dentre os freqüentadores da praça, e formando uma turba puseram a cidade num tumulto, e assaltando a casa de Jason procuravam trazer os missionários para a Demos (Assembléia do povo); 6. mas, não os achando, arrastaram para fora, à força, Jason e alguns irmãos, para os Politarcas, proclamando solenemente: “Estes que o mundo habitado estão agitando, estão presentes também aqui, 7. os quais foram recebidos por Jason; todos estes estão agindo em oposição aos decretos de César, afirmando ser Jesus outro Rei.” 8. E agitaram a multidão e os Politarcas, ouvindo estas coisas. 9. Mas tendo recebido de Jason e dos outros a taxa (fiança) determinada, relaxaram a prisão para eles. 10a. E os irmãos, imediatamente à noite, enviaram Paulo e Silas para Beréia ...

O trecho que temos segue, com certas diferenças, o modelo narrativo de viagens, característico em Atos.

Esquema

1. Localização dos missionários v. 1

2. Exposição das Escrituras v. 2-3

3. Resultado da pregação v. 4

4. Reação contra os missionários v. 5-9

5. Transição para outra localidade v. lOa

Notar que os vv. 10b-15, que narram o episódio em Beréia, segue o mesmo esquema.

Já na estrutura do texto notamos, pelo critério formal, que o conflito ocupa um lugar de destaque na narrativa como resultado do anúncio da boa-notícia. Porém, vamos aprofundar a análise através das três questões colocadas acima.

1. QUAL ERA A COMPOSIÇÃO DESTA CIDADE?

Tessalônica era uma cidade livre, localizada na Província senatorial da Macedônia, da qual era sua capital. Possuía um porto e era perpassada pela Via Egnácia. Como cidade livre, tinha uma Constituição própria e baseava-se no modelo grego de governo (Assembléia do povo, Conselho e Magistrados); podia cunhar moeda e não havia guarnição militar dentro de seus muros.

Quanto ao governo local de Tessalônica, podemos confiar no relato de Atos 17, onde encontramos a menção expressa à “Assembléia do povo” (Demos v. 5), que aqui não é sinônimo de multidão (v. 8) como pensam alguns, e às “autoridades” (politarcas v. 6 e 8), que são bem atestadas em inscrições encontradas na Macedônia.

O papel destes magistrados locais era promover o culto local e o culto ao Imperador. Eram também responsáveis pela conservação de edifícios públicos; promoção dos jogos; manutenção da ordem e administração da justiça.

Portanto, para exercer tal cargo uma pessoa tinha que possuir uma situação econômica e social bastante privilegiada para arcar com os gastos dessas tarefas. E era justamente desses setores nobres que Roma escolhia os seus colaboradores locais.

Sendo capital da Província, Tessalônica era o centro da administração romana para a Região, exercida por um Procônsul que nela residia. Seu porto indica um intenso comércio de grande importância para o abastecimento, sobretudo de Roma. Cortada por uma estrada militar (Via Egnácia), a cidade colaborava estrategicamente para o domínio da região. Lembremos que Filipos, cidade vizinha, era uma Colônia romana.

O fato de haver uma sinagoga (v. 1) na cidade mostra a importância da colônia judaica em Tessalônica.

Por toda a diáspora ocidental os judeus conservavam a sua identidade étnica e suas tradições religiosas em torno de uma sinagoga.

Tais agrupamentos de judeus tinham o estatuto de uma cidade “dentro” da cidade (Politeurna). Estavam desobrigados do serviço militar; sua religião era tolerada, entre outras coisas. Via de regra estes judeus eram bem estabelecidos economicamente, sendo comerciantes e banqueiros.

No texto, eles cercam-se de homens para fazer agitação. Tais homens eram pagos para esse serviço. Ademais, os judeus conseguem uma audiência com as autoridades, o que demonstra o poder desses homens.

No versículo 4 há menção de quatro categorias de pessoas que aderiram ao Evangelho: 1. Judeus, 2. Piedosos, 3. Os Gregos, 4. Mulheres proeminentes.

Sobre os judeus já tratamos acima.

Os “piedosos” eram não-judeus (pagãos) ligados ao judaísmo pela observância de alguns elementos da religião judaica (p. ex. monoteísmo, regras morais), sem, todavia, se integrarem totalmente ao judaísmo.

Certamente a proposta de um único Deus, em meio à diversidade de deuses e regras morais rígidas, contrapostas a algumas formas de culto orgiástico (p. ex. Festas Dionisíacas), atraía a simpatia de muitos pagãos.

Os “gregos”, devemos distingui-los dos piedosos, pois estes são pagãos “semi-convertidos” ao judaísmo e aqueles são pagãos afeitos aos ídolos.

Tal distinção ajuda a compreender a referência de 1 Tessalonicenses 1,9 de que os tessalonicenses deixaram os “ídolos” e se converteram a Deus. Também pode esclarecer 1 Tessalonicenses 2.14 onde se fala que os irmãos foram perseguidos pelos seus “patrícios”

Contudo, a informação de terem deixado os “ídolos” deve ter incluído, com certeza, também o abandono do culto ao Imperador.

A respeito deles, os gregos, fala-se em “largo número” (v. 4), o que determinou a composição gentílica da Igreja de Tessalônica.

Se tivermos em conta que Paulo era artesão e trabalhava com pessoas do mesmo ofício (At 18,3); que ao escrever para Tessalônica se dirigiu a gentios trabalhadores manuais como ele (1 Tessalonicenses 2,9; cf. 4,11) e que não permaneceu apenas três Sábados (v. 2) em Tessalônica, mas ficou trabalhando lá o tempo suficiente para receber ajuda de Filipos (Filipenses 4.10s), então parece inevitável caracterizar estes gregos como artesãos e trabalhadores manuais, qualificados ou não, que eram a maioria na comunidade.

Podemos aduzir ao que foi dito o texto de 2Ts 3,8-11, que fala de trabalho árduo realizado em Tessalônica, trabalho, ao que tudo indica, mal remunerado, que só dava quase para o pão. Ainda que se duvide da autoria paulina desta carta, nada indica que não se refira a uma realidade de Tessalônica.

Portanto, parece que uma boa parcela da população dessa cidade era composta por trabalhadores manuais.

Finalmente o v. 4 fala de “mulheres proeminentes” (cf. também o v. 12). Há uma variante textual que fala em “mulheres dos principais da cidade”. Porém, em qualquer das duas leituras que adotarmos, será destacada a elevada posição destas senhoras. Salta aos olhos a expressão “não poucas” que acompanha “mulheres proeminentes”, isto é, havia muitas dessas na comunidade!

Atos 17,12 ajuda-nos a compreender o caráter material da posição social das mulheres mencionadas.

Aqui se fala de “mulheres gregas de alta posição”. A palavra traduzida como “alta posição” é composta do advérbio “bem” +0 substantivo “esquema” derivado do verbo “ter” (relações e posses) e pode significar “bem situada economicamente” ou “bem relacionada socialmente”.

Expressão semelhante é usada em At 13,50, onde se diz como “os judeus instigaram tais mulheres, juntamente com os principais da cidade”, a perseguirem Paulo e Barnabé.

Interessante em At 17 é que tais mulheres não agem em favor dos missionários!

Portanto, temos entre os que aceitaram o Evangelho: Judeus (alguns), Piedosos, Gregos (largo número) e Mulheres proeminentes (não poucas!). Certamente essas pessoas eram parte da composição social da cidade.

O texto amplia a lista. No verso 5 aparecem os “homens maus dentre a malandragem” que foram arregimentados pelos judeus para alvoroçarem a cidade.

Tais homens eram freqüentadores da praça do mercado, local onde se concentrava o comércio e onde se reunia a Assembléia do povo (Demos). As traduções da Bíblia, em geral, traduzem homens “maus” no sentido ético (p. ex. perversos, iníquos, pior espécie, vagabundos). Nas traduções transparece um juízo de valor a respeito de tais homens. Entretanto, o que faz com que sejam tratados como “maus elementos”?

Nada parece indicar esta direção ética de compreender o termo. Pelo contrário, temos pessoas bem situadas economicamente (mulheres) que, pela perspectiva de Atos, davam “status” ao cristianismo como religião; trata-se não de uma corja, mas de pessoas bem situadas.

Assim, deveríamos pensar em caracterizar esses homens, não no sentido ético e sim no seu aspecto material.

É lugar comum citar um trecho da obra de Plutarco (Aem. Paulus p. 344) no qual aparece o termo que se traduz por “ralé”, “malandragem” dentre os quais são arregimentados os tais homens “maus”. Termo que aparece também em At 17,5 e em uma situação bastante semelhante, ou seja, de agitação contratada.

No texto de Plutarco os da “malandragem” são entendidos de diversas maneiras, tais como: “gangsters” (F.F. Bruce), “desocupados que procuram tumultos e distúrbios” (NDITNT), “Vadios e ociosos” (Chames), “Vagabundos de praça pública, capazes de amotinar a população e de usar de violência intrigando e vociferando” (Catherine).

Contudo, nenhum desses autores diz nada da situação social dos componentes deste grupo, exceto Catherine que fala em indigentes, escravos foragidos, gladiadores, assassinos fugitivos entre outros. Podemos acrescentar: desempregados, agricultores que perderam suas terras, pois estão na praça do mercado onde vendiam seus produtos (?).

A própria palavra que caracteriza esses homens de “maus” (entendida até aqui no sentido ético) significa, em termos físicos e materiais, alguém em condições pobres, indigente, miserável, economicamente empobrecido, que na praça do mercado deixa-se alugar para serviços de agitação e tumulto como forma de ganha-pão.

Assim, podemos traduzir da seguinte maneira tal expressão: “homens miseráveis dentre os freqüentadores da praça do mercado”.

Jason aparece no texto como hospedeiro (v. 7) dos missionários. Ele paga a fiança exigida para serem soltos da prisão. Não sabemos muito mais dele. Todavia, seu nome pode indicar que ele era judeu.

Os “decretos de César” são mencionados no v. 7. E quais eram eles não se fala. Parece ter sido alguma infração contra a posição “real” de César, ao qual corresponderia o título de “rei” atribuído a Jesus. Podemos pensar na possibilidade de ter sido um ato de “lesa-majestade”, isto é, atentar contra a dignidade do Imperador, dizendo haver outro.

Seja como for, a referência aos decretos de César fazia lembrar as autoridades locais as suas responsabilidades para com a ordem no Império. Elas deveriam manter sob controle os que ameaçavam a Pax Romana. O culto ao Imperador, promovido por essas autoridades, era o símbolo maior da presença dominadora de Roma, sendo o culto um ato de lealdade para com essa dominação.

Ainda temos uma “multidão” (v. 8) anônima e sem rosto que foi alvoroçada pelos judeus + miseráveis da praça. Outros episódios em Atos mostram que tal multidão servia aos propósitos das manobras dos privilegiados pelas autoridades romanas. No contexto imediato (17,13), os judeus de Tessalônica foram a Beréia excitar a “multidão” por causa dos missionários que lá estavam. Em Éfeso (18,23-40) a “multidão” (cidade) estava em confusão (v. 29) e nem mesmo muitos dos componentes da Assembléia sabiam o motivo de estarem no teatro (v. 32). Em Filipos (16,22) a “multidão” levantou-se contra os missionários em vista da acusação que fizeram os senhores da escrava que possuía um espírito de adivinhação.

Finalmente, dois outros episódios são instrutivos a respeito.

Atos 14.19 mostra os judeus de Antioquia e Icônio que foram a Listra instigar as “multidões” contra Paulo. E no trecho de Atos 21.27 os judeus da Ásia que estavam em Jerusalém alvoroçaram a “multidão” contra Paulo.

Podemos afirmar, sem medo de errar, que havia nas cidades uma multidão anônima que era utilizada como massa de manobra por aqueles que detinham algum tipo de privilégio social ou econômico.

Assim, a composição social de Tessalônica que emerge do texto e da historia mostra uma sociedade bastante estruturada:
— Na seqüência do texto temos a cidade livre de Tessalônica governada por nobres locais submetidos a Roma à qual deviam lealdade absoluta.

— Os judeus aparecem em torno de uma sinagoga. São comerciantes e banqueiros bem estabelecidos econômica e socialmente.

— Os Piedosos, pagãos afeitos ao judaísmo.

— Os Gregos, em largo número, são a massa de trabalhadores manuais, artesãos.

— As mulheres proeminentes são as senhoras da alta sociedade urbana.

— Os miseráveis da praça do mercado são os empobrecidos, escravos foragidos, gladiadores, assassinos, desempregados, entre outros.

— Ainda compõe este quadro uma multidão anônima e sem rosto.

Portanto, na cidade as relações, pela própria estrutura social, já são conflitivas e complexas. O Evangelho virá, por um lado, agravar alguns conflitos, por outro estabelecer novos.

2. COMO O EVANGELHO ACONTECEU NESSA CIDADE?

A pregação do v. 3 é estilizada em Atos:

“... tendo inculcado ser necessário que o Cristo (Ungido Messias) sofresse a morte e ressuscitasse, e este é o Cristo, Jesus o qual anuncio a vós.”

Essa mensagem provocou reação diversa nos ouvintes, que foram confrontados com a boa-nova, a qual exigiu uma tomada de posição.

Aos judeus a boa-notícia soou como algo inaceitável, pois que esperavam um messias triunfante, apto a remover o domínio estrangeiro de sobre os ombros de todos os judeus. E o apóstolo Paulo apresentou-lhes um crucificado como o Ungido.

Alguns deles aderiram à proposta do Cristo sofredor. Isso significou que os convertidos sofreram perseguição dos judeus que antes estavam juntos no mesmo propósito. Isto não é suposição se levarmos em conta que Paulo era judeu perseguido por judeus e que provavelmente Jason era judeu.

O mesmo grupo da sinagoga sentiu escapar-lhes da mão os Piedosos que estavam próximos ao judaísmo. Também isso foi motivo para o ciúme por parte deles.

Lembremos que, ao acusarem os cristãos às autoridades, os judeus incluíram “todos estes”. Ainda que se refira a Jason + missionários, também estavam incluídos “alguns irmãos” (v. 6).

Os Gregos convertidos à proposta do Evangelho foram perseguidos pelos seus “patrícios” (1 Tessalonicenses 2.14) e essa tribulação parece ter sido cruel (1 Tessalonicenses 3.1s).

Já em relação às mulheres proeminentes não temos nenhuma referência que tivessem tido conflitos com alguém. O que notamos é que o Evangelho vai provocando conflito, dividindo grupos, formando outro: a Comunidade.

Contudo, o conflito não parou por aí. Ele cresceu e extrapolou os limites de grupos, passando ao âmbito da cidade e do Império. Dois elementos nos mostram isso. Um é o fato dos judeus terem alugado homens da praça para tumultuar a cidade, lançando-a contra os cristãos. O outro é o fato de terem envolvido as autoridades no conflito, não só as locais, mas também a imperial, por causa da acusação de deslealdade política.

Apesar do esforço de Atos para minimizar o aspecto entendido como deslealdade política para com Roma, é inevitável que assim se entenda, pois tratar Jesus com o título de Rei ou Senhor implicava em abandonar o culto ao Imperador e com isso a lealdade ao mesmo tempo, violando certos decretos, como por exemplo, a proibição da pregação como “predição” de um novo Rei (Imperador).

Assim, vemos que o Evangelho na cidade de Tessalônica não foi um fator de integração à “paz” estruturada da sociedade dessa cidade. Pelo contrário, a boa-nova foi mais um elemento que pôs a sociedade em conflito.

A relação de alguns com seu grupo foi rompida. A lealdade política foi relativizada. A estrutura social foi confrontada com um novo tipo de relação entre as diversas categorias de pessoas, isto é, confrontada com a comunidade organizada e fraterna, que estilhaçou as barreiras sócio-culturais e econômicas em certa medida. A boa-notícia alterou a relação das pessoas com o Império, abrindo a possibilidade de perseguição por deslealdade para com Roma.

Antes de ser um elemento pacificador, o Evangelho é um fator que coloca a sociedade em crise.

3. DE QUE ÓTICA DEVEMOS OLHAR A CIDADE?

Já vimos demonstrando que Atos tem uma visão da cidade bastante tendenciosa, isto é, tende às classes mais abastadas, e que Paulo parece olhar mais de outra perspectiva. Vejamos.

A tese de que Atos adota uma ótica de privilegiado, social e economicamente, é um fato bem aceito hoje. Uma excelente exposição desse ponto de vista pode ser encontrada em Pax Romana, p. 130-153.

Tomamos isso como correto. Atos 17 vem confirmar tal tese, O texto se esforça por manter em evidência pessoas de posse que aderiram ao Evangelho. Não aparece a qualificação das pessoas, exceto de dois grupos: o das mulheres que são caracterizadas como “proeminentes» e o dos homens da praça, caracterizados como “miseráveis”.

A função literária desta disposição textual deve ser a de contrapor o cristianismo, de pessoas distintas (não poucas), aos judeus + ralé que são os verdadeiros agitadores.

Isso pode ser confirmado no v. 12 na disposição gramatical das “mulheres gregas de alta posição”. Uma vez por serem mencionadas em primeiro lugar. Outra vez por ter um genitivo antes do substantivo. E mais uma vez por ter um adjetivo antes do substantivo.
Notamos que há um esforço para destacar as pessoas bem situadas na sociedade. A ótica é de “cima”. Assim, desfaz-se a suspeita de que os cristãos são desleais ao Império. Outra é a percepção de Paulo. Dos gregos que entraram para a comunidade em largo número não se diz nada em Atos!

Porém, se é correto que Paulo se dirigiu a uma comunidade basicamente de gentios em Tessalônica na sua Primeira carta aos Tessalonicenses e que trabalhou lá com as próprias mãos junto a outros do mesmo ofício, aos quais exortou a que trabalhassem com suas próprias mãos, então temos Paulo olhando a comunidade e conseqüentemente a cidade desde os trabalhadores manuais que nela atuam.

Isso pode ser confirmado com a linguagem utilizada pelo apóstolo nesta carta ao falar da vida da Igreja. A terminologia é emprestada do mundo do trabalho: “trabalho” da fé (1,3); “labor” do amor (1,3); “operar” da palavra (2,13); “trabalho duro” do missionário (3,5); “trabalho duro” dos que presidem e exortam (5,12); “trabalho” dos mesmos (5,13).

Constatamos, entretanto, que nada é dito explicitamente dos escravos (num sistema escravista!). Filemon nos ajudaria. Em outra ocasião.

Portanto, para a mesma realidade social, vimos duas óticas de leitura: a de Atos e a de Paulo. A de Atos a partir dos privilegiados. A de Paulo a partir dos trabalhadores.

Ainda restaram os “homens miseráveis da praça” e a “multidão” de manobra a serem atingidos com o Evangelho. Não só lá, como aqui também.

CONCLUINDO

Não é necessário traçar um perfil de nossas grandes cidades. Quem mora nelas ou já moramos as conhece e a nós especialmente dirigimos essas páginas.

Portanto, ao trabalharmos com o Evangelho na cidade precisamos ter clara a composição social da mesma. Tentar vislumbrar os conflitos que emergirão com a proclamação da boa-nova. E, sobretudo, escolher uma ótica de leitura da realidade que esteja mais próxima e possível dos menos favorecidos.

E isso é o fundamental.

 

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