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Introdução

 A arqueologia tem fornecido a base material para a análise não apenas da “produção material” de determinados grupos sociais, mas também a evidência de como essa produção se processou, isto é, o “modo de produção” peculiar a uma dada cultura ou grupo social e ainda como tal sociedade se apropriou dos bens produzidos.

Neste texto pretende-se examinar indícios que ajudem a responder à essas três questões básicas com relação ao período helenístico, ou seja, “o que foi produzido”; “como foi produzido” e “quem se apropriou do que foi produzido”. Com isso espera-se delinear os contornos da sociedade da época, mormente da relação entre “campo e cidade”.

Delimitação do estudo

Duas delimitações se fazem necessárias nesta abordagem. A primeira é de caráter temporal e a segunda de caráter geográfico. Ao se falar de período helenístico deve-se compreender o lapso de tempo que se inicia em 332 a.C., com as conquistas orientais de Alexandre, o Grande, e se prolonga até 63 a.C. com a conquista da Palestina pelos romanos. Quanto à delimitação geográfica, a referência será ao território que se convencionou chamar de Palestina, onde, como poderá ser comprovado, houve uma intensa penetração do helenismo.

Questão da perspectiva adotada

Para tematizar o conflito campo - cidade, de uma perspectiva arqueológica, é necessário estabelecer algumas diretrizes básicas quanto ao método adotado, pois deve-se deixar claro como se dá a passagem das “evidências materiais” para as “evidências sociológicas”, ou seja, como se pode falar de estruturas sociais através da cultura material.

O ponto de vista adotado neste trabalho será a proposta feita por  Pedro Paulo Abreu Funari1 , relatada, em resumo, abaixo. O autor começa por definir o que ele entende por arqueologia, definição que vai nortear todo o seu trabalho sobre essa disciplina. Para ele

“... Arqueologia estuda os sistemas socioculturais, sua estrutura, funcionamento e transformações no decorrer do tempo, a partir da totalidade material transformada e consumida pela sociedade.”  p. 9 (grifos do autor).

Ele entende cultura como sendo composta de dois elementos inseparáveis: 1) mundo material (artefatos, ecofatos e biofatos); e 2) mundo espiritual (= imaterial, as relações sociais).

Entendendo a arqueologia deste modo, Funari mostra que o “objeto da arqueologia” não coincide com o “objetivo da arqueologia”. O “objeto” é a totalidade material, enquanto que o “objetivo” é como se aborda essa totalidade material. Isto quer dizer, na prática, que o “objeto arqueológico” pode ser o mesmo em qualquer abordagem, mas que o “objetivo arqueológico” pode variar de abordagem para abordagem.

Assim, é possível constatar que, dependendo da abordagem que se adote, os objetivos podem ser de fazer da Arqueologia apenas uma disciplina auxiliar das outras ciências, como a História, a Sociologia, a Antropologia e assim por diante. Esta é a postura de Uriel Rappaport quando afirma, por exemplo, que

“Os (objetos) podem, entretanto, ser usados para ilustrar uma leitura acadêmica sobre a história do período ...”2

Ao atribuir à Arqueologia um papel secundário, tal abordagem apenas continua uma linha de pesquisa que se convencionou chamar de “tradicional”.

Por outro lado, há abordagens em que a Arqueologia desempenha um papel específico como ciência, por causa do seu “objeto próprio”, pois

“A especificidade de cada ciência humana consiste, essencialmente, no seu objeto primário de investigação e nos meios particulares de tratamento desse objeto.”3

Compreendida deste modo, a Arqueologia tem sua autonomia, possuindo seu próprio instrumental de trabalho e seu próprio quadro epistemológico. De maneira que os  seus “objetivos” podem ser delineados autonomamente das outras ciências.

Portanto, o objetivo da Arqueologia, neste caso, estará vinculado, primeiramente, aos próprios pressupostos socioantropológicos, isto é, à pergunta pelo funcionamento e transformações nas sociedades humanas e apenas secundariamente a outras disciplinas. O que resulta numa escolha determinada pelo compromisso ou não do pesquisador com esta ou aquela classe social. Tal compromisso pode ser bem exemplificado com a assim denominada “Arqueologia do Proletariado”, termo cunhado pelos professores F.E. Dobberahn e V.Hoefelmann4, que tomam uma postura ao lado do povo sofrido da América latina.

De fato, Funari diz que

“A Arqueologia nada mais é que uma leitura, um tipo particular de leitura ...”5

implicando, assim, numa opção a priori  dos objetivos da Arqueologia.

Ao se tomar os “objetos arqueológicos” com objetivos socioculturais, Funari mostra que os “artefatos” são portadores de índices das relações sociais, isto é, indicam as relações sociais nas quais foi produzido. Artefatos que, ao mesmo tempo, são mediadores de tais relações, ou seja, direcionam as relações de quem entra em contato com eles. Neste ponto se dá a passagem do artefato para as pessoas e suas relações sociais. Para demonstrar tal passagem o autor menciona o caso das ânforas romanas do sec. I d.C., que ilustram bem esta dinâmica dos objetos.

Ao discutir a questão sobre a relação entre as fontes arqueológicas (artefatos) e as fontes documentais (escritos), se a primeira serviria apenas de prova para a segunda, Funari mostra que se tratam de níveis diferentes de informação, pois nos artefatos estão a concretização e nos escritos a representação ideológica de uma classe. Portanto, a dicotomia entre uma e outra fonte, no caso da prioridade entre elas em caso de discordância entre as mesmas, é infundada, pois cada qual tem sua especificidade, sendo que sua relação é, antes, de complementariedade, do que de subordinação ou contradição.

Funari mostra, em todo o livro, que a opção que se fizer inicialmente determinará todo o trabalho arqueológico, tanto os “objetos” a serem pesquisados quanto os “objetivos” com que eles serão pesquisados. Resultando, daí, num serviço à manutenção do status quo vigente ou numa crítica ao mesmo.

Assim, a cultura material de um povo pode servir de base para uma análise da sociedade deste mesmo povo, sendo possível, portanto, fazer afirmações sociológicas a partir de dados arqueológicos.

O que foi produzido?

O material arqueológico, que pode ser datado da era helenística, provêm de diversos sítios arqueológicos da Palestina6. No mapa é possível ter uma noção genérica dos sítios nos quais foram encontrados evidências materiais da época em tela.

Essa cultura material, pode ser classificada em três grandes grupos7:

I) Numismática: que compreende as  A) moedas  
II) Ruínas de monumentos e engenharia civil: que abarcam A) fortificações; B) residências; C) templos e D) monumentos funerários
III)  Artefatos da vida diária: que englobam todo tipo de utensílios de cerâmica

I) Numismática

A) Moedas - As que foram encontradas nos sítios da Palestina e que seguramente pertencem ao período helenístico, foram classificadas em dois grupos principais: (cf. anexo 28)

a) Moedas ptolomáicas: cunhadas pelos ptolomeus nas quais aparecem a “águia” ptolomáica e o retrato real

b) Moedas Yehud (Judá): cunhadas em Judá, cujo modelo é inspirado nas moedas estrangeiras.

Aparte o significado destas moedas para o estudo de questões linguísticas9, a sua relevância maior é para a compreensão da sociedade em si. Em termos econômicos, as moedas refletem uma interação entre o mundo helenístico e o judaico, sendo uma relação de subordinação dos últimos aos primeiros, pois, por si só, a cunhagem de moedas neste período (III e II sec. a.C.) não significou a autonomia política dos judeus em relação aos Ptolomeus. Do ponto de vista político, entretanto, as questões fundamentais são duas: Primeira, qual era a posição política do Sumo Sacerdote por essa época? Segunda, qual era a posição da província da Judéia sob os Ptolomeus?

Sejam quais forem as respostas às essas perguntas, o certo é que não poderão fugir da realidade de que as moedas são um “índice” e “mediadoras” de uma realidade sócio-econômica.

II) Ruínas e Monumentos10

Os sítios arqueológicos da Palestina, possuem uma grande diversidade de ruínas e monumentos que podem elucidar muito a vida cotidiana da época helenística.

Relatar cada construção ou sítio tornaria este trabalho desnecessariamente cansativo. Por isso, um rápido resumo sobre os monumentos será suficiente para o propósito desta monografia.

Entre os numerosos testemunhos arqueológicos da Palestina, as “fortificações” ocupam um lugar destacado na paisagem. Isso é perfeitamente compreensível, sabendo-se que o objetivo dos reis era o de estabelecer pontos de defesa militar em seu domínio.

Outra construção que devem ser mencionada são as “residências”. Com a penetração do helenismo as residências orientais sofreram modificações, seja no tamanho, seja no estilo. É sobretudo no tamanho que se pode ver  a diferença entre as classes sociais. Enquanto a classe abastada morava em casa de até 350m2 com grande conforto e ricamente decorada, a classe menos favorecida continuava a habitar casas que mantinham um padrão bem mais simples. As instalações domésticas como: prensa de uva e azeite; oficina de tingimento; lojas; fornos de olaria entre outras se constituem em indícios da atividade econômica doméstica.

Os “templos” e as “tumbas” são também indícios arqueológicos que denotam, invariavelmente, opulência e poder por parte de seus construtores e ocupantes, como se pode ler nas inscrições funerárias dos túmulos.

III) Artefatos da vida diária

É a olaria11, sobretudo, representada por inúmeros artefatos (jarros, panelas, copos, pratos, potes, ânforas, lâmpadas), que testemunham as atividades diárias em âmbito particular e público; econômico e comercial. Entre essa massa de testemunhos arqueológicos, destacam-se, seja pela importância histórica, seja pela relevância sócio-econômica, os seguintes:

A) Jarros com alças: com inscrição YHD (paléo-hebráica) descobertos na área de Jerusalém. Os símbolos destes jarros parecem indicar um selo oficial do governo.

B) Jarros com alça: com um selo circular que consiste em uma estrela de cinco pontas, símbolo tradicional do Sumo-sacerdote, com a inscrição YRSLM.

C) Ânforas: vasos cerâmicos de 40 e 110 cm com alças, selo e, às vezes, com inscrição indicando o conteúdo.

No caso dos jarros, especialmente os do tipo do item B), esses eram utilizados para a coleta de taxas, enquanto as ânforas serviam para o transporte e armazenamento de diversos produtos. As ânforas variavam na forma e capacidade de acordo com a serventia a que estavam destinadas. Assim, determinadas formas serviam para o vinho, outras para o azeite e assim por diante (tais conclusões são baseadas em análise química de restos destas ânforas). Portanto, a incidência desta ou daquela forma de ânfora, nesta ou naquela região poderia indicar os produtos importados ou exportados.

Consequentemente, poder-se-ia deduzir quais e tais produtos esta ou aquela região produzia ou carecia. Ainda mais, daria para determinar até mesmo o trabalho daqueles que manipulavam essas ânforas nos armazéns e portos, pois por serem lacradas, somente pelo aspecto formal é que se podia identificar o conteúdo de cada recipiente, isto é, tal trabalho exigia alguma especialização por parte do trabalhador.

O mesmo pode ser dito quanto os jarros para coleta de impostos. Através deles se poderia determinar com quais tipos de produtos se pagavam as taxas e, consequentemente, o que cada região produzia.

Em resumo, as evidências materiais encontradas na Palestina helenística são em número e representatividade suficientes para que se possa afirmar que houve uma intensa atividade cultural na região, isto é, de uma atividade humana transformadora sobre a natureza. Em outras palavras os testemunhos arqueológicos dão conta de uma intensa produção de bens.

Cabe perguntar, agora, como esses bens foram produzidos e por quem foram apropriados. Com isso se ocupará o tópico seguinte.

Como se produziu?

A produção material de uma sociedade é determinada pelo seu “modo de produção”.
Para o período em tela o “modo de produção” tem a ver com a relação entre o campo e a cidade, pois toda a sociedade da época se construiu a partir e sobre o campo. Certamente que não foi no sentido em que entende Meyers e Kraabel

“Em muitos sentidos o período greco-romano pode ser visto como um diálogo entre cidade e vila, entre o urbano e o rural.”12

Pelo contrário, a relação entre “cidade - campo” se caracterizou por um permanente e insolúvel conflito que pode ser expresso, grosso modo, pela expressão “as cidades eram,... economicamente parasitas do campo”.

Portanto, é necessário caracterizar uma e outra entidade para, somente depois, ver como se relacionavam.

Cidade

A partir de Alexandre, o Grande, o oriente passou a contar com cidades em diversas regiões. A fundação de cidades obedecia a três propósitos fundamentais, quais sejam: estratégico, econômico e político. Apesar de não se poder dissociar um aspecto do outro, havia ênfase em um dos elementos conforme a localização da cidade.

As cidades podem ser agrupadas na seguinte tipologia:

1. Colônias militares: exclusivamente povoada por gregos com objetivos, sobretudo estratégicos (p.ex. Apamea do Orontes)

2. Antiga cidade oriental: eram cidades orientais ocupadas por gregos que recebiam um estatuto político e um nome grego (p.ex. Antíoco IV quis que Jerusalém se chamasse Antioquia)

3. Reconstruídas: cidades destruídas por terremotos ou outro acidente natural ou mesmo por guerra e no lugar delas eram reconstruídas outras cidades. Neste caso os cidadãos eram transplantados de outras regiões para povoá-la. Além disso, as cidades menores podiam ser fundidas com outras cidades do mesmo porte (sinoicismo - fusão de cidades).

4. Cidades próximas às grandes capitais orientais: Nestas moravam os elementos “indígenas”, naquelas, os gregos (p. ex. Selêucida junto a Babilônia; Ptolomaica junto a Tebas - alto Egito).

Governo das cidades

1. Assembléia do povo: composta censitariamente, ou seja, somente pelos cidadãos que possuíam determinada quantia em dinheiro. A função da Assembléia era exercer os três poderes;

2. “Bulé” e “Gerusia”: corpo restrito da Assembleia que tinha a função de  executar as deliberações da Assembléia;

3. Magistrados: ecônomos, ginasiarcas, estratego, juizes, polícia, responsáveis pelas festas, entre outros;

4. Politeuma: não era parte do governo da cidade, mas era a chamada “cidade dentro da cidade”, isto é, um corpo de estrangeiros que tinham constituição própria e governo próprio (p.ex. Judeus em Alexandria).

Serviços “públicos”

1. Provimento de trigo: quando da escassez do mesmo revendiam mais barato ou mesmo doavam trigo;

2. Medicina pública: médico nomeado pela Assembléia e retribuído pela cidade com um imposto específico para esse fim (iatrikon);

3. Distribuição de água: resguardar as fontes e cisternas da contaminação;

4. Festas e ginásio: diversão e educação.

Relação com o rei

1. Rei podia dispor da cidade como propriedade para vendê-la ou presenteá-la;

2. Rei nomeava magistrados locais, estrategos e comissários reais. Este último intermediava as relações da cidade com o rei;

3. O rei, via de regra, atuava como árbitro nas cidades que incorporavam a legislação real que tinha prioridade sobre a local;

4. Havia uma guarnição real estacionada nas cidades e, em caso de necessidade, a cidade alojava as tropas reais;

5. As cidades deviam o “foros” (imposto de responsabilidade coletiva) ao rei. Além disso as cidades ofereciam ao rei as chamadas “coroas de ouro” por  algum benefício recebido da parte deste.

Campo

O campo não era de forma alguma uma entidade autônoma em relação à cidade, muito pelo contrário, cada cidade tinha uma região ao seu redor, denominada “chora” que era o campo mesmo (cf. anexo 3). Nesta “chora”, em geral, prevalecia a cultura e a língua indígena.

A propriedade da terra era distribuída da seguinte forma:

1. Terras reais: os reis possuíam imensas extensões de terra além de ter o controle das terras sagradas e direito aos impostos das terras cedidas aos militares (cleruquias);

2. “Doreai”: grandes extensões de terras reais que eram cedidas a altos funcionários que tinham apenas o direito do usufruto;

3. Pequenas propriedades: agricultores livres que possuíam pequenas propriedades.

A implantação das cidades levou a um êxodo rural bastante acentuado o que obrigou a uma promoção da agricultura através do: 1) aperfeiçoamento de técnicas agrícolas (arado de ferro, máquina de trilhar trigo, moinho de água, prensa de azeite, lagar); 2) aclimatação de plantas estrangeiras e 3) irrigação de terras não férteis.

Além disso, para evitar o esvaziamento do campo, foram criadas leis que proibiam, em certas cidades, a permanência do campesino por mais de vinte dias na cidade.

Para aumentar o contigente de lavradores, os cidadãos que eram feitos prisioneiros, durante a tomada de alguma cidade, eram transformados, à força, em camponeses.

Outras medidas, em diversos lugares, tentavam compensar a despopulação do campo através de: 1) distribuição de terras mediante fracionamento da grande propriedade; 2) abolição de dívidas; 3) assentamentos de novos cidadãos; 4) fragmentação de terras públicas entregues a arrendatários; 5) empréstimos; 6) doações reais.

Trabalho na terra

1. Arrendamentos:  as terras eram arrendadas pelos reis, grandes proprietários e templos, para agricultores livres (assalariados);

2. Trabalho escravo: ao invés de arrendar, os proprietários utilizavam escravos para produzir. Um exemplo de um arrendamento pode bem ilustrar as condições gerais de trabalho e ganho por parte de quem trabalhava a terra e o rendimento da mesma13.

Área: 1 tenência = 10 e 20 aruras (2,5 e 5 ha)
Produção: 10 artabes/arura  (1 artabe = 30 l de trigo)
Pagamento: 5 artabes para o rei (arrendamento, sementes, impostos)
Sustento: 25 artabes sustentava-se 2 pessoas/ano + forragem para o gado
                 20 aruras alimentava-se 4 pessoas/ano

Enquanto o ganho do assalariado era o seguinte:

Assalariado: 1 ou 2 óbolos/dia (4 ou 8 Kg/dia)
Sustento:  alimentava 5 a 10 pessoas/ano

Por outro lado, um soldado recebia em média de 360 a 960 dracmas/ano e um oficial percebia até 3.600 anuais.

A estatística acima mostra que a condição do assalariado era um pouco melhor do que a do arrendatário, mas se comparada com os trabalhadores da cidade, sobretudo os militares, a situação de ambos era de penúria.

Cidade x Campo

Já a estatística de ganhos aponta para uma diferença brutal entre campo e cidade. Mas esta diferença não é apenas salarial, nem tampouco natural. Tal desproporção no rendimento do agricultor aponta para um problema bem mais grave do que se poderia supor à primeira vista. De fato, o abismo entre os ganhos dos campesinos e o ganho dos citadinos é reflexo da exploração daqueles por estes.

A relação entre cidade e campo era de dependência, daquela em relação a este, como ilustra o seguinte texto da petição de Libânio ao imperador romano:

Mostra teu interesse, não apenas pelas cidades, senão também pelo campo, ou melhor, pelo campo mais do que pelas cidades, pois aquele é a base sobre qual estas se apoiam. Podemos afirmar que as cidades tem seu fundamento no campo, e este é o embasamento daquela ao proporcionar-lhe trigo, cevada, uvas, vinho, azeite e alimento em geral para os homens e os demais seres vivos. Se não houvesse bois, arados, semente, plantas, rebanhos, nunca haveriam surgido cidades. Efetivamente, uma vez que estas surgiram, têm dependido sempre da sorte do campo, e o bem ou mal que lhes acontecem depende dele.14


Porém, tal relação, é bom que se insista, era de exploração da cidade sobre o campo, como pode ser ilustrado na seguinte citação:

As cidades eram parasitas do campo. Suas entradas consistiam sobretudo da rendas que obtinha a aristocracia urbana dos campesinos ... O esplendor da vida citadina se pagava, em grande medida com a ditas rendas, e nessa mesma medida as aldeias se viam empobrecidas em benefício das cidades... Os magnatas urbanos se punham em contato com os aldeões apenas em três funções: como arrecadadores de impostos, como policiais ou como proprietários de terra.15

A forma como esta exploração se dava foi percebida de maneira inequívoca pelo médico e escritor Galeano na seguinte passagem:

Ao passar o verão, os que viviam nas cidades, iam por todas as partes para recolher provisões de grãos em quantidade suficiente para o ano todo, levaram dos campos todo o trigo, assim como toda cevada.... e não deixaram para os camponeses nada mais que os produtos chamados vanias e legumes; e levaram inclusive boa parte deles para a cidade. De modo que a gente que vivia no campo, depois de haver consumido durante o inverno o que havia restado, se viu obrigada a adotar formas insanas de alimentação.16

O autor prossegue dizendo que tipo de alimentos os camponeses eram obrigados a comer e como tal alimentação resultava em muitas enfermidades.

Parece não restar dúvidas de que vasta produção material da sociedade no período helenístico se deveu, quase que exclusivamente, à relação entre o campo e a cidade, relação de conflito e exploração.

Conclusão

O propósito deste texto foi o de verificar como a Arqueologia, como disciplina autônoma, pode evidenciar, através da cultura material, a sociedade que produziu tal cultura. Em outros termos, a pesquisa objetivou, especificamente, delinear a relação entre campo e cidade na Palestina da era helenística, tendo como pressuposto básico que tal relação era de dominação e conflito, conforme já conhecida pelas fontes literárias.

Para realizar tal intento o trabalho levantou dois questionamentos básicos: O que foi produzido? e Como foi produzido? a partir dos quais, se procurou demonstrar a tese proposta.

O quadro teórico sob o qual foi feita a análise foi o proposto pelo arqueólogo Funari em sua obra Arqueologia, no qual o autor propõe que a Arqueologia não é uma ciência neutra e que os resultados dependem em grande medida das perguntas colocadas pelo pesquisador para serem respondidas pelos testemunhos arqueológicos. Em outras palavras, o que os artefatos podem dizer sobre uma determinada sociedade depende dos “objetivos” de formulados a priori.

Como resultado desta análise emergiu um quadro que vem comprovar, arqueologicamente, o que já era conhecido de outras fontes. Porém, não apenas comprovar materialmente, mas mais do que isso, colocar o pesquisador em contado pessoal com o próprio mundo pesquisado, manipular os mesmos artefatos que as sociedades manipularam, ainda que com objetivos diferentes, sentir, enfim, a materialidade da opressão da cidade sobre o campo.

Bibliografia

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HARRISON, Robert. Hellenization in Syria-Palestine: The case of Judea in the third century B.C.E.  Biblical Archaeologist 57/2 (1994) 98-108.
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MEYERS, Eric M. and KRAABEL, A. Thomas. Archaeology, Iconography, and Nonliterary Wrintten Remains. In: KRAFT, Robert A. and NICKELSBURG, George W.E. (eds.). Early Judaism and its Modern Interpreters. Philadelphia/Atlanta, Fortress Press/Scholars Press, 1986. pp. 175-210.
PRÉAUX, Claire. El Mundo Helenistico - Grécia y Oriente (323-146 a. de C.). Barcelona, Editorial Labor, 1984. Tomo Primeiro, 322 p.
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NOTAS

1. Arqueologia. Editora Ática, 1988. 85 p. Devido ao propósito deste trabalho, não será discutida, aqui, a questão dos métodos arqueológicos.
2. Uriel Rappaport, The Material Culture of the Jews in the Hellenistic-Roman Period, p. 45
3. Pedro Paulo Abreu Funari, op. cit, p.16
4. Redescobrindo as Cruzes lá onde Foram Erguidas: reflexões sobre uma arqueologia do proletariado (Estudos Teológicos 31/1 (1991)  85-100.
5. Op. cit, p. 22
6. Mapa em Marie-Christine Halpern-Zylberstein, The Archeology of Hellenistic Palestine, p. 2
7. Cf. Robert Harrison, Hellenization in Syria-Palestine: The case of Judea in the third century BCE, p. 100 e Marie-Christine Halpern-Zylberstein, op. cit, p. 1
8. Figuras em  Yaakov Meshoser, Jewish Numismatics, pp. 216-217
9. Cf. Uriel Rappaport, op. cit, p.45
10. Para o que segue cf. Marie-Christine Halpern-Zylberstein, op. cit, pp. 1-34
11. Marie-Christine Halpern-Zylberstein diz o seguinte sobre a importância da olaria: “Para o arqueólogo ligado a Palestina, a olaria não é apenas a evidência mais valiosa, mas também o reflexo da evolução da cultura material”, op. cit, p. 28
12. Archaeology, Iconography and Nonliterary written Remains,  p.183
13. Exemplo de Claire Préaux, El Mundo Helenístico - Grécia y Oriente (323-146 a. de C.), pp. 268-269
14. citado por G.E.M. de Ste. Croix, La Lucha de Clases en el Mundo Griego Antiguo, p.30
15. A.H.M. Jones, citado por Idem, Ibidem, p.26
16. Galeano citado por Idem, Ibidem, p.27

 

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