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Acreditam nas Flores vencendo os Canhões

“Põe-me como selo sobre o teu coração,
como selo sobre o teu braço,
Porque o amor é forte como a morte,
E inexorável como o Sheol a paixão,
Sua chama é chama de fogo
Veementes labaredas de Javé

As muitas águas não poderiam apagar o amor,
Nem os rios afogá-lo;
Ainda que alguém desse todos os bens da sua casa pelo amor, seria de todo desprezado”

“que acreditam nas flores vencendo os canhões.”

Homilia Cantico dos Canticos 8.6 7 Pastor Cristofani

Este verso faz parte da bem conhecida canção de Geraldo Vandré – “Prá não dizer que não falei de flores”. Canção de protesto e de luta. Uma canção de resistência.

Flores e canhões.

Flores são a maneira silenciosa e carinhosa de expressar o amor. Os canhões, por sua parte, o poder.

Queremos meditar brevemente sobre o tema: Amor e Poder.

Amor entendido como sendo mais que um sentimento. Uma relação. Relação de dois iguais, mulher e homem, garoto e garota.

Poder compreendido, não como uma dominação aberta, declarada, porém, sutil, velada.

E isso no livro de Cantares.

Nele entramos pela porta dos fundos, como quer o verso 7b

“Ainda que alguém desse todos os bens da sua casa pelo amor, seria de todo desprezado”

Esse aforismo é a janela na qual debruçaremos para olhar essa coleção de poemas. Esse dito é meditação de sábio que redatou o livro de maneira a construir uma instrução sobre o amor enquanto relação.

Tal instrução quer mostrar a beleza exultante do amor entre homem e mulher e o poder que ameaça de contínuo essa relação.

O amor é descrito de forma poética, romântica, terna. É um exagero que não pode ser expresso nem com “mil rosas roubadas”. É a convivência apaixonada da mulher com o homem, do garoto com a garota.

“Eu sou para meu amado e seu ardente desejo o traz a mim. Vem, ó meu amado, saiamos ao campo, passemos as noites nas aldeias. Levantemo-nos cedo de manhã para ir às vinhas; vejamos se já florescem as vides, se se abre a flor, se já brotam as romeiras; dar-te-ei ali meu amor.”  7.11-13

Numa paisagem bucólica e afrodisíaca, o encantamento mútuo destila toda emoção, prazer e sensualidade que pode existir num leito à relva, na penumbra dum quarto.

A paixão da relação chega às raias dos sonhos, devaneios:

“sustentai-me com passas, confortai-me com maçãs, pois desfaleço de amor.” 2.5

A imaginação rompe as barreiras do impossível, atravessa os vales do insondável e vai repousar sobre o corpo da amada, do amado.

É a linguagem do amor. Amor criado com carinho, alimentado com paixão. É o amor conquistado com palavras doces e suaves, mágicas, buquê de flores, gestos amenos.

Poesia e sedução, alegria e emoção. Que rio pode afogá-lo? Que águas apagá-lo?

Entretanto, à espreita está o poder, a dominação sutil e cotidiana.

O sábio sabe da ameaça e procura divisá-la. E o faz tomando Salomão como figura idealizada daqueles que exercem o poder como determinante das relações.

“Cântico dos Cânticos sobre Salomão.” 1.1a

Os Cânticos não são de Salomão, nem para ele, senão sobre Salomão, isto é, o cantar dos Cantares é uma veemente crítica ao modo como “Salomão” trata o amor, como “ele” age numa relação a dois.

“O rei me introduziu nas suas recâmaras.” 1.4b

O ato de introduzir requer certa imposição. A moça foi levada à força para os aposentos do rei, que depois de possuí-la, lança-a no harém, lugar de esquecimento aonde vão as mulheres não amadas, compradas, exigidas como tributo, exibidas como troféu.

“Sessenta são as rainhas, oitenta a concubinas e a virgens sem número.” 6.8

Tal é o harém!

“Que é isso que sobe pelo deserto ... É a liteira de Salomão; sessenta valentes estão ao redor dela ... Todos sabem manejar a espada. O rei fez para si um palanquim de madeira do Líbano ... colunas de prata, assento de púrpura e tudo interiormente ornado com amor pelas filhas de Jerusalém.” 3.6-10

O tirano não sabe amar, ter uma relação de diferentes-iguais. Empreende um desfilar de seus dotes e bens, de sua bem equipada e treinada guarda pessoal. Exibe seu poder, sua sedução está na força. Tudo pelo amor. Inútil! Tais lisonjas não se coadunam com a expectativa da outra pessoa que quer se deixar conquistar, seduzir, não ser conquistada, seduzida à força.

A estratégia não sensibiliza a moça, antes, causa uma resistência:

“O meu amado é meu e eu sou dele ...” 2.16a

A resistência vem em forma de amor. É amando espontânea, sincera e verdadeiramente que se faz resistência ao poder e brutalidade da tirania sutil que assalta toda relação a dois. A ela se responde com um amor suave e delicado, forte como a morte.

O mais sublime dos Cânticos é uma canção de resistência, como o é a canção de Vandré. Resistência ao poder sorrateiro que quer impor uma relação e impor-se na relação. Contra tal:

“há que endurecer, porém sem perder a ternura.” (Chê)

O perfume exalado de uma relação de diferentes-iguais estão nas flores às vossas mãos. Às mãos daqueles que:

”acreditam nas flores vencendo os canhões”

Amém

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